quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Refém da Sabesp
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Ainda sobre política e futebol
Com os novos desacordos, agora os dirigentes do (quase ex-) Time dos Sonhos fazem de tudo para impedir que a equipe repita a desastrada história do Cosmos de Nova York. Explico.
Na década de 70, apesar de ter os melhores jogadores do mundo, inclusive Pelé, o time norte-americano nunca ganhou nada importante. Sua curta existência se resumiu a alguns títulos no fraco campeonato ianque e a jogos “exibição”.
Mas ainda é cedo para afirmar que o campeonato de 2012 vai ser decidido entre o Íbis Sport Clube e o Cosmos de Nova York (também conhecido como Time dos Sonhos). Isso porque pintou novidades. Mais duas equipes vêm sendo formadas, e elas podem complicar a vida dos atuais favoritos ao título.
No comando de uma dessas equipes está uma ex-secretária que virou ícone do elenco de futebol feminino que ela dirigiu por mais de três anos. Ainda hoje, “muitas” atletas (que também são educadoras) pedem sua volta ao cargo que ocupou até abril de 2008. E, sendo “Verde” a cor desse time, a agremiação foi batizada de Palestra da Alta Paulista. Dito isso, vamos à quarta equipe.
Gilmar, Oreco, Valmir, Jaime e Sidnei; Ari Clemente, Miranda e Abib; Joaquinzinho, Da Silva e Neves. Essa formação do Corinthians ficou conhecida no ínicio da década de 60 pelo apelido de “Faz-me rir”. A equipe era tão ruim que, depois de apanhar de 7 x 0 da Portuguesa, o legendário goleiro Gilmar deixou o Parque São Jorge em seu DKW (espécie de Fiat 147 da época, ops!) e foi para o Santos.
Recordo esse capítulo da história do Timão para dizer que em homenagem ao elenco alvinegro do início dos anos de 60, a quarta equipe que está sendo treinada para 2012 vai se chamar “Faz-me rir”. Esse time será formado pelos partidos nanicos e terá como estrelas alguns “jogadores” que não raro aparecem em fotos nos jornais agarrados ao pescoço de honestíssimos políticos, como se tais personagens fossem a taça Jules Rimet. Aliás, um de seus principais jogadores recentemente posou feliz da vida abraçado a Paulo Maluf, como se o rei das contas na Suíça fosse um troféu.
Depois dessa proeza, o craque tem tudo para ser aclamado capitão da equipe do “Faz-me rir” em 2012. Essa vantagem que a foto com o ex-hóspede da Polícia Federal dá ao craque do “Faz-me rir” só poderá ser anulada se alguma outra celebridade do gênero, como Celso Pitta ou Renan Calheiros, aparecer por aqui e um outro jogador do “Faz-me rir” resolver abraçá-lo diante das lentes dos cronistas sociais da cidade.
Enfim, caro leitor, agora que você sabe que o campeonato de 2012 será disputado por Íbis, Cosmos (ex-Time dos Sonhos), Palestra da Alta Paulista e Faz-me rir, o resto é com você. Quanto a mim, já que as coisas andam de mal a pior para quem escreve crônica em Adamantina, mais uma vez encerro um texto sem saber se vai ter outro na semana que vem. Fui.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Onde estavam os vereadores de Adamantina?
No último sábado, vereadores de várias cidades se reuniram em Dracena para discutir problemas da região. O encontro propôs formar uma associação na Nova Alta Paulista, com o objetivo de favorecer a discussão dos assuntos regionais com o legislativo estadual e implementar medidas que visem o progresso dos respectivos municípios.
Estiveram presentes vereadores e 11 presidentes de câmaras municipais. Osvaldo Cruz, Lucélia, Tupã, Mariápolis, Pacaembu e outros municípios vizinhos se fizeram representar. Na ocasião foram debatidas questões como o impacto das penitenciárias e a importância da nova entidade. É uma reunião que mostra maturidade. Mas onde estavam nossos vereadores?
Não se pode pensar em coordenação regional sem a participação de Adamantina. Uma cidade que se orgulha de ser polo educacional, referência na área cultural e de eventos, de ter um atrativo comércio e de contar com políticos bem relacionados com deputados não pode ficar alheia a tais acontecimentos. A rigor, deveria encabeçar os esforços para a sedimentação da nova instituição.
É provável que nossos vereadores tenham tomado conhecimento da reunião, feita num final de semana para facilitar o comparecimento. Ou nossos edis não foram convidados para o evento? Se isso ocorreu, trata-se de uma demonstração de desprestígio do legislativo local. Caso o convite tenha sido feito, por que não se enviou um representante?
Raros são os momentos em que os políticos da região deixam as diferenças de lado e decidem trabalhar em conjunto. A própria associação de prefeitos, a AMNAP, tenta sair dos anos de apatia. Adamantina perde a oportunidade de se colocar à frente das discussões regionais e de se lançar como força representativa. Numa época em que os grandes líderes mundiais trabalham de forma coordenada e buscam tomar decisões em conjunto, nossa cidade falta a um encontro de agregação de forças. É uma pena!
A ausência de nossos representantes nos faz acreditar que ou há apatia ou há supervalorização de Adamantina nos assuntos regionais. Depois da perda de verbas, de instituições e de benefícios para outras cidades da região, sobram as costumeiras justificativas, mas elas não resolvem. O que precisa de fato é uma atuação forte e voluntariosa de nossos políticos para impedir que perdas maiores ainda venham a ocorrer. Que se comece pelo envolvimento dos vereadores nos fóruns regionais, nos quais não só mostrem espírito de luta, como também disposição para liderar todo e qualquer esforço em favor da região.
A mágoa em cidade pequena
Essas mágoas, mais as da infância, as da vida de moço e uma infinidade de outras foram se acumulando até fazer de Ressentido um amante do quarto escuro, do telefone mudo e do muro alto.
O fato é que, numa pequena cidade, onde as mesmas pessoas frequentam os mesmos espaços a vida inteira, o ressentimento é mais presente e incômodo. Quanto menor o lugar, mais mágoa. A pequena comunidade em que a amizade une a todos num laço comum de bem-querer até existe, mas na imaginação de quem vem da capital passear.
Está certo, a mágoa é uma defesa natural como qualquer outro instinto, mas não deixa de ser de boa estratégia relevar certas coisas e conviver com todos, mesmo que se tenha maior aproximação só com alguns poucos escolhidos. Falo aqui de conveniência, não de perdão, palavra que apenas designa uma nobre intenção. Calar a mágoa talvez seja algo para uma espécie bem superior à nossa.
Se o rancor diminui é porque a pessoa que magoou perdeu a importância para o magoado, não porque ele decidiu perdoá-la. Quem tem poder sobre os próprios sentimentos? “Engana-se aquele que acredita que os grandes personagens possam esquecer as velhas injúrias em virtude de novas vantagens”, disse Maquiavel. É verdade, mas ele se enganou em restringir-se aos grandes personagens. Por acaso, os “pequenos” personagens pertenceriam à mesma espécie dos ursinhos de pelúcia?
No sentido que dissemos, perdão, esquecimento e descaso são sinônimos e nenhuma dessas palavras tem relação com bondade ou maldade. A pessoa que convive apesar da mágoa é aquela que entende que a mágoa não precisa impedir o relacionamento com alguém; até porque ela também precisa da tolerância dos outros. Não é boazinha, mas apenas uma pessoa prática, que gosta de si mesma e de ver as coisas andarem. E, convenhamos, a tolerância não só é um esforço em favor do bem comum como também uma demonstração de civilidade.
domingo, 2 de agosto de 2009
Medida necessária?

Semana passada ganhou destaque em Adamantina a suspensão das atividades escolares em decorrência da possível contaminação dos alunos pelo vírus H1N1, conhecido como gripe suína. Afirmo “possível contaminação”, pois não foi registrado nenhum caso da doença na cidade.
Algumas escolas, por determinação da Secretaria da Educação do Estado, prorrogaram o início das atividades. Mas as medidas referentes às escolas municipais, colégios particulares e a FAI foram tomadas pelas autoridades locais. O cancelamento das aulas pode ser precipitada, pois criou-se na cidade uma sensação alarmista, mesmo sem motivo aparente.
Não se fundamenta a justificativa das autoridades e da direção da faculdade quando afirmam que os alunos, moradores de outras cidades e estados, podem trazer o vírus ao município. Daqui duas semanas a chance de contágio não será a mesma ou até maior? Os estudantes que ficaram em suas cidades continuarão correndo o risco de contaminação. A medida teria eficácia preventiva se nossa região contasse com inúmeros casos. Não é o que ocorre.
Seguindo a recomendação da Secretaria Municipal de Saúde, as escolas particulares também cancelaram suas atividades. A sensação de alerta tomou conta da cidade. Apesar de nenhum caso registrado, quase não se encontra o remédio destinado ao tratamento da gripe nas farmácias, mesmo o produto tendo alto custo. Muitos correram em busca do álcool em gel e mães preocupadas não querem mais que seus filhos se reúnam com outras crianças. Nas conversas informais o tom é de apreensão.
A mídia e as autoridades federais reforçam que a gripe suína não representa grande risco a população. Lavar as mãos com frequência e não colocá-las nos olhos, boca ou nariz já são suficientes no atual estágio. Em recente entrevista, o ministro da Saúde José Gomes Temporão afirmou que 99,6% das pessoas que contraem o vírus não serão afetadas, pois as defesas naturais do corpo se encarregam de combatê-lo.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A fila dos bancos
Poucos são os momentos de isonomia entre os brasileiros. Num país conhecido pelas grandes desigualdades e pela clara diferenciação entre as classes sociais, as filas são um dos poucos momentos verdadeiramente democráticos.A falta de fiscalização em Adamantina gera transtornos inadmissíveis. Filas desorganizadas que às vezes chegam às escadas e até mesmo à rua, colocando as pessoas ao sol, e morosidade no atendimento. Como se sabe, após a venda do Banespa para o grupo espanhol, outra instituição assumiu a folha de pagamento do servidor estadual.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Toque de recolher: a terceirização da autoridade

De tempos em tempos esse preconceito ressuscita. Partindo-se do que deve ser o “costume correto”, fazem-se leis tendenciosas, muitas vezes inspiradas em modismos, sem uma reflexão mais acurada. Formulam-se comportamentos padronizados, os quais todos devem acatar. Nessa liberalidade enquadra-se o toque de recolher.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Da escravidão às cotas raciais

Como de costume, 13 de maio, dia em que foi assinada a Lei Áurea em 1888, passou despercebido em quase todo o Brasil. Fora do calendário oficial, a abolição se tornou mais um fato colocado no rodapé da história, que pouco ou nada diz às pessoas. A questão dos feriados no Brasil é fato que merece atenção. Longe de escolhas aleatórias, as datas comemorativas servem para legitimar opiniões e construir a consciência nacional.
O Brasil foi o último país da América a banir o trabalho compulsório e a oficializar o princípio jurídico da igualdade. Reivindicada pelos ingleses, que queriam ampliar seu mercado consumidor, e pela intelectualidade nacional, que via a escravidão como um entrave à modernidade, a abolição foi a ruína da base política do Império e mal assimilada por setores da tradicional elite escravista. Muitos não viam com bons olhos a ideia de trabalho assalariado.
Na época, o real significado da lei para a população escrava não foi mensurado. Sem teto e escolaridade, milhões de libertos perambularam pelas principais cidades à procura do que fazer. De um lado, sufocada pelo estigma da indolência e do atraso; de outro, pela onda de imigrantes europeus que aportavam no país, a grande massa negra se viu marginalizada nas décadas iniciais da República. Restavam-lhe os subempregos e as periferias.
Até 1970, 90% da população negra do Brasil era analfabeta. Segundo muitos, embasados em teorias meritocráticas, a condição do negro é condizente com a pouca aptidão para assuntos intelectuais. Nessa perspectiva a análise não se assenta na sociologia, e sim na genética. Questão defendida pelos eugenistas, a idéia da inferioridade negra sobrevive de forma latente na sociedade brasileira, fato comprovado em alguns minutos de conversa em qualquer roda de “esclarecidos”.
Segundo o último censo étnico racial da Universidade de São Paulo, apenas 1,3% de seus 38.930 alunos de graduação se declara negro. Na Bahia, onde 70% da população são negros, apenas 4% dos estudantes de medicina afirmam pertencer a essa etnia. Menos de 15% dos brasileiros com ensino superior completo são negros. Nesse aspecto, a exclusão racial é paralela à social, já que a maioria desse segmento étnico compõe-se de famílias de baixa renda.
Algumas políticas estão sendo implementadas pelo governo federal e pela sociedade organizada para a inclusão dos negros em espaços antes exclusivos dos brancos. As cotas raciais estão nas universidades públicas, nos desfiles de moda, na televisão, nos debates políticos. Contudo, muitos veem esse esforço apenas como um paliativo segregacionista que pode dar margem a uma divisão racial no país.
O fato é que os 350 anos de escravidão negra no Brasil ainda geram graves injustiças. A busca de alternativas para minimizá-las demorou para começar: restrito aos meios políticos e acadêmicos e às camadas mais esclarecidas da sociedade, o debate sobre a definitiva inclusão de nossa população negra ainda não ganhou as ruas. Os três séculos e meio de escravidão continuam a dividir os brasileiros entre os que servem e os que são servidos, levando-se em conta apenas a cor da pele.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O garanhão paraguaio

Dias atrás, a mídia noticiou algumas das peripécias amorosas do ex-bispo da Igreja Católica, e hoje presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Até agora três mulheres afirmam ter mantido relações sexuais com o ex-clérigo antes mesmo de ele renunciar ao episcopado, fato consumado para que pudesse assumir o governo.
Duas questões importantes devem ser analisadas. Em primeiro lugar a discrepância entre teoria e prática no que tange ao discurso e dogmas católicos. Não bastasse quebrar o voto de castidade, Lugo afirmou que uma das mulheres usava o DIU e que uma “falha” desse dispositivo teria levado à gravidez.
O uso de métodos anticoncepcionais é uma das mais fortes bandeiras da Igreja Católica na atualidade. A Campanha da Fraternidade de 2008 teve como lema “Escolhe, pois, a vida”, numa verdadeira cruzada contra a camisinha, o aborto e as pesquisas com células-tronco. Se nem os defensores da ideia a seguem, como pregá-la ao “rebanho”? Pelo menos desta vez a relação foi consensual e não mais um caso de pedofilia, escândalo que já se tornou corriqueiro. Mas essa não é a única questão.
O Paraguai é um dos países mais pobres da América. Encontra-se, segundo dados da ONU, em 95º em Índice de Desenvolvimento Humano, 71º em alfabetização e 75º em mortalidade infantil. Ostenta também um pífio desenvolvimento industrial e sérios problemas de concentração fundiária e de renda.
Mas os problemas pessoais e até instintivos, no caso de Lugo, se sobrepõem aos problemas de maior importância. A polêmica levantada fornece farto material para a mídia sensacionalista. E esse fato não é singular apenas aos nossos vizinhos.
Um destacado intelectual adamantinense, munido do que ele entende como “ética protestante”, acredita que a vida pessoal do homem público está atrelada ao seu cargo. Segundo esse pensamento a pessoa pública deve dar explicações sobre sua conduta à sociedade. Contudo, ancorado em pouca experiência e menor capital cultural, acredito que a vida privada é algo inviolável, e não domínio público, mesmo que os envolvidos o sejam.
O caso do garanhão paraguaio é mais um exemplo de uma sociedade em crise de paradigmas, fundamentada na defesa de dogmas ultrapassados e anacrônicos, os quais nem mesmo seus defensores seguem. Demonstra também uma mídia obcecada pela vida privada e pelos bastidores, deixando a ética e o bem público apenas nos mal consultados manuais de jornalismo.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Outsider

O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues colecionou desafetos e polêmicas em sua carreira. Avesso à hipocrisia moral, tornou-se um ícone e um intelectual de respeito, dentre outras coisas, por suas belas tiradas e frases de efeito. Uma delas, inesquecível e atemporal, resume bem o estado de espírito de sociedades conservadoras como as de cidades interioranas.
“Toda unanimidade é burra”. A frase, antológica e repetida à exaustão, não só é autofágica e autoafirmativa como também serve de exemplo à idéia que pretendo passar.
Numa cidade como Adamantina pulula a hipocrisia da falsa virtude. O manual da boa convivência tende a exaltar a mediocridade, no sentido original da palavra, o que nivela o pensamento num baixo nível de reflexão. Essa atitude tem como objetivo manter, de forma dissimulada, as relações sociais e profissionais de um pequeno município.
O exército da moralidade está sempre vigilante e não hesita em apontar os transgressores. A teatralidade nos gestos, nos rituais e nas falas delineia uma sociedade passiva, típica das cortes europeias decadentes que não percebiam que os tempos estavam mudando. A subserviência é estimulada desde a infância e poucos se sentem confortáveis em arriscar.
O outsider, denominação anglo-saxã para aquele que não se enquadra e que vive à margem dos dogmas sociais, é digna de respeito. Levantar bandeiras e defender pontos de vistas contrários ao senso comum é algo raro no atual contexto. As próprias famílias se envergonham dessas condutas, precisando explicar, segundo a ótica do senso comum, as atravessadas opiniões desses dissidentes.
Nos últimos dias, um senhor de conhecida família adamantinense, decidiu expor seu ponto de vista sobre a reforma de um importante prédio da cidade. Dirigiu-se ao rádio e, valendo-se de sua liberdade de expressão, defendeu a sua lógica. Fato raro. Talvez, apenas tenha canalizado a opinião de muitos. Talvez.
Na verdade, há um misto de repulsa e admiração nesse caso. O que temos visto é que o homem médio, assalariado, “pai de família”, quando não tem preguiça de refletir sobre determinadas questões, se acovarda diante delas. Em sinal de submissão, rememora os rituais que vêm se repetindo ao longo dos anos, aos quais ele não ousa desobedecer. As “blasfêmias” dos outros servem como ópio para sua passividade. Esse prazer íntimo em contestar a hierarquia, mesmo de forma velada, é sentido em pequenas doses, dadas por aqueles que não hesitam em pensar e em manifestar seu pensamento.