quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Religião e homofobia

A Fundação Perseu Abramo divulgou recentemente um estudo sobre a percepção do brasileiro em relação à homossexualidade. Os dados são um retrato do conservadorismo nacional e da perniciosa influência do discurso tradicionalista que persiste no país, acalentado pela maioria das religiões.

Segundo a pesquisa, 58% dos brasileiros veem a homossexualidade como um pecado e 84% defendem que Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel de ter filhos. Esse entendimento, mesmo não materializado em discriminação explícita, mostra quão atrasado está o debate sobre a questão.

Ao propalarem um modelo “ideal” de organização familiar, contrária à união de pessoas do mesmo sexo, ao divórcio, aos métodos contraceptivos, tais religiões não levam em conta a complexidade das relações humanas e seguem o caminho contrário à liberdade individual. Defende-se um modelo, se não ultrapassado, no mínimo avesso às conquistas de grupos minoritários da sociedade. A defesa de dogmas e de “verdades reveladas” é um direito dos que seguem seus credos, mas não deveria estimular nenhuma espécie de discriminação, nem mesmo de forma dissimulada. Ressalte-se que 99% dos entrevistados afirmaram ter preconceito não-declarado contra lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.

Ao defender modelos “corretos” de conduta, de família e de costumes e ao marginalizar os que não comungam tais idéias, os religiosos tendem a negar o preceito de igualdade entre os homens, que talvez seja a maior contribuição do cristianismo à humanidade. Estaria aí, portanto, nesse desrespeito às diferenças e aos direitos individuais, o cerne da maioria dos conflitos de toda a história e dos principais embates que são notícia em todo o mundo.

Não mais se queimam bruxas, hereges, homossexuais ou judeus em praça pública. Mas o fato de a Igreja Católica ter voltado a ofertar o perdão dos pecados por meio de indulgências, prática condenada por Martinho Lutero no século XVII e que consiste em anistiar o pecador da punição pós-morte por meio de pagamento ou de favor, gera a preocupação de que ressurjam certos preconceitos hoje velados no discurso dos púlpitos.

O presidente americano Barack Obama ressalta que a democracia exige que as religiões e seus adeptos traduzam suas preocupações em valores universais, e não em valores específicos de um credo. Ou seja, que as propostas e as visões de mundo defendidas pelos religiosos estejam sujeitas a discussão e sejam influenciadas pela razão. Essa é de fato uma importante condição para que se possa almejar uma sociedade mais pluralista, tolerante e igualitária.

6 comentários:

Everton Santos disse...

Bruno, continua sendo um dos poucos a escrever sobre assuntos polêmicos.

Parabéns pela análise. Acredito que este tipo de preconceito equivale-se ao racismo, ainda presente em nosso cotidiano - mesmo que disfarçado.

A orientação sexual das pessoas deve ser respeitada, assim como as demais opções feitas. É claro que existem excessões. Não há como aceitar algumas opções políticas, por exemplo.

O mundo está em constante mudança e os diversos escândalos de pedofilia envolvendo padres colaboraram para o "perdão" oferecido por algumas religiões. Mas esta postura não encobre a vergonha e a obscuridade de tais atos.

Espero que as pessoas de bem possam refletir sobre o outro antes de julga-lo. Que as "autoridades" não utilizem de sua "influência" e do dinheiro dos contribuintes/fiéis para sair com garotos de programa e depois questionem tal postura nos altares e púlpitos.

Abraços.

Padre Anchieta disse...

Pare com isso, esse assunto já deu o que tinha que dar. Agora só dá enjoo nos leitores.

Bruno Pinto Soares disse...

Olá Caros,

Obrigado Everton. Não escrevo sobre esses assuntos apenas para causar polêmica ou algum constrangimento. Artigos de opinião devem servir para reflexão daqueles que o leem e também de nós que os escrevemos.

Também admiro sua coragem e espero que seus textos não fiquem apenas em seu Blog.

Ao amigo que não quis se identificar, o assunto "deu o que tinha que dar"? A discussão sobre a homossexualidade ainda engatinha no Brasil. Há muito o que se pensar sobre a questão.

Creio eu que uma a mudança de postura das diversas seitas do país melhoraria a convivência e diminuiria os efeitos da homofobia.

De qualquer maneira estou aberto a críticas.

chicobiblia disse...

Homossexual é homossexual; e heterossexual é heterossexual. O que todos têm de aprender é conviver com as diferenças porque elas existem. São fatos. Nada de intolerância religiosa ou preconceito de qualquer espécie!
Francisco Alves de Pontes

Bruno Pinto Soares disse...

Olá Francisco,

Fico feliz com sua participação no Blog. Ele já teve momentos melhores, é verdade, mas a falta de assunto e, principalmente, coragem minaram a idéia inicial.

Fiquei intrigado. Como vc entrou em contato com o Blog?? Vc não mora mais em Adamantina?

Grande abraço

chicobiblia disse...

Bruno
Deixei Adamantina em dezembro de 1960. Mas meus pais e a maioria dos meus dez irmãos continuaram morando em Adamantina e eu sempre os visitava.
Mesmo depois da década de 1980, quando meus pais e meus irmãos não estavam mais em Adamantina, ainda fiz uma ou outra visita a esta cidade. E agora, graças à Internet e a este blog, pude ler alguma coisa sobre Adamantina e entrei em contato.
Chico