sábado, 21 de junho de 2008

Cabras Malditas

Dizem que a bebida maldita surgiu ao acaso. Reza a lenda que um pastor de cabras no século III D.C., chamado Kaldi, ficou preocupado ao ver que parte de suas queridas cabras não tinha voltado ao rebanho. O patrício foi ver o que tinha acontecido e as encontrou um tanto alteradas, saltitando e berrando. Percebeu que os animais tinham comido alguns frutos vermelhos, de um arbusto que ele desconhecia, e que esses frutos teriam dado aquele descompasso estranho na criação. Dizem que ele mesmo provou e, vendo que havia se alterado, resolveu perguntar aos monges de um mosteiro das redondezas o que seria aquilo. As reações não foram boas, acreditaram que a fruta fosse coisa da Besta-Fera dos infernos e os frutos foram jogados no fogo. Imediatamente um aroma delicioso tomou o ar do mosteiro. O Abade voltou atrás de sua decisão e moeu os grãos torrados, fez uma efusão com aquele pó e, assim como as cabras, ficou muito doido. Junto com seus monges louvaram a Deus por aquela dádiva que os mantinham acordados por longas orações. Pronto, estava inventado o café. Coisa de Deus ou de Belzebu?
A bebida se popularizou, fazendo surgir em Meca as primeiras casas de café no inicio do século XV. Na verdade, essas casas eram centros de reuniões religiosas e por causa do café tornaram-se centro de músicas, danças, jogos de xadrez e o pior, conversas alteradas sobre os mais diversos assuntos. Os muçulmanos mais devotos desaprovaram o novo costume e, em alguns países, apoiados por governantes, atacavam essas casas de café impondo penas horripilantes tais como açoitar e amarrar em um saco de couro e jogar o alterado consumidor de café nas águas do Estreito de Bósforo.
O café se popularizou ainda mais, saiu do Oriente Médio, conquistou a Europa e as Américas e, como não poderia deixar de ser, chegou ao Brasil, ao Estado de São Paulo, ao Oeste Paulista e, finalmente, aonde eu gostaria de chegar: Adamantina.
Em Adamantina acontece um curioso fenômeno com a bebida. Além de despertar a energia daqueles que a consomem, propicia o estranho dom de falarem coisas que não sabem. O pior de tudo é que falam como doutores. Abraçam determinado tema que não conhecem e falam como peritos, exímios conhecedores do bem e do mal. Além desta característica, o café de Adamantina dá aos seus consumidores o estranho hábito de não conseguirem colocar em prática aquilo que falam nas mesas dos salões de café. Toda sabedoria que possuem termina no fundo de suas xícaras, melada de açúcar, e no cumprimento: “até amanhã!”.
Os principais assuntos que acompanham o café adamantinense são futebol e religião. Fala-se pouco da política, mas de politicagem, fala-se muito. Como sempre, o assunto fica por ali, dentro dos salões, como os monges que descobriram o café, morriam dentro das capelas, rezando e louvando a Deus: fé sem obras.
É preciso tomar cuidado quando se toma café em Adamantina. Às vezes, acredito que o problema não seja somente com o café. Existem outros agravantes, pode ser a água de Adamantina, as mesas e as cadeiras dos nossos salões de café, o açúcar, o adoçante, a xícara, o pires, a colherzinha, enfim, inúmeros fatores que causam estes fenômenos. Uma coisa é certa, com as pessoas que consomem o café não tem nada de errado. São todos ilustres, “Malditas Cabras”.

5 comentários:

Bruno Soares disse...

Cacá Haddad, o Rei das metáforas políticas. Fico imaginando o que passa na cabeça dos 'donos do poder' quando veêm essa nossa 'petulância'. Será que frutos serão colhidos?

Bem, eu tenho uma visão diferente do professor Geraldo. Acho que devemos sim escrever sobre Adamantina. Isso não nos torna limitados e sim pragmáticos.

Sei lá, é uma opinião...

Junior disse...

Quanta ironia!! Articuladores, filósofos, estrategistas, jovens que lutam por um único ideal: A verdade acima de tudo.
Estão de Parabéns, deveriam divulgar melhor o site, para que toda população pudesse ter esse deleite espiritual.

Bruno Soares disse...

Olha só! O Blog nem foi divulgado e os bons comentários já apareceram.

Ironia a parte, o nosso ilustríssimo 'Junior' tem todo o direito de pensar que falamos bobagens, que queremos ter a razão e que somos pretensiosos.
Talvez seja isso mesmo, vai saber!

Apesar que ser comparado com os estrategistas e articuladores dessa cidade não é mérito para ninguém.

Fabio Ortega disse...

A inda bem que meu café é com adoçante um abraço cacá

Sebar disse...

não se pode esquecer que em terras provincianas, toma se muito café nesta ou naquela padaria, se possível, de esquina para um sabor a mais...