quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ensaio sobre o fracasso

Não há ninguém mais admirado do que o sujeito que está plantando a própria danação, distribuindo vantagens a amigos e pisando rivais, falando o que quer, flertando o tempo todo com a irresponsabilidade e, com isso, passando aos que o rodeiam a sedutora idéia de que sensatez é coisa de fraco. Esse período de ouro do futuro arruinado, para quem vive por perto, é uma tentação: “Se fulano faz o que faz e é o que é, bobo sou eu de fazer tudo certo!”
O fracasso parece ser um processo em dois tempos, em que o primeiro é a causa, e o segundo, o efeito. O curioso é que, quando se está no céu (na causa) é difícil imaginar que o inferno (o efeito) está por vir. É natural, se de um lugar desse para ver o outro, o céu não seria um paraíso. E a experiência mostra que o infortúnio não tem pressa de chegar. Às vezes a festa é tão longa que se chega a pensar que o ditado “O crime não compensa” só vale se se levar em conta o juízo final. Essa demora ajuda a confundir.
Na primeira etapa, julga-se (admira-se) um sujeito notável, arrojado, que sabe aproveitar a vida; na segunda, os poucos que se dêem ao trabalho condenam a trajetória de um condenado, o que é uma redundância. De que vale a história de um solitário? Nada mais sem graça do que um pavão que perdeu as penas...
O primeiro período é bem mais marcante do que o segundo, quando apenas se “deduz” o óbvio, isto é, que a insensatez penaliza. Aquilo que antes era arrojo agora leva o nome de trapalhada. Essa lembrança sobre a trajetória do abandonado dura um instante, é aborrecida e meio moralista; já o período de admiração à boa-vida dele foi longo e instigador, porque colocava sob suspeita nossos próprios hábitos.
Quando estão carregando o bêbado para fora da festa, ficamos um pouco chateados de ter bebido com ele; quando estão fazendo pouco-caso do mal-sucedido, nos perguntamos como pudemos tê-lo admirado. Agora que se deram mal, fora com os dois!, aconselham nossos mecanismos de defesa do ego.
Contudo, o candidato a bêbado-banido continuará a ser quem mais vai nos divertir nas festas e o futuro solitário, aquele que mais vai nos instigar no dia-a-dia. Nenhum dos dois leva uma etiqueta na testa anunciando seu destino, e a irresponsabilidade, por se confundir com uma vida mais leve e interessante, é uma musa insistente, que vive acenando com promessas de felicidade.

22 comentários:

Jé Theodoro disse...

Existem algumas verdades que são universais.

Cintia Scoriza disse...

No entanto a estrutura psiquica pode produzir falhas nos seus desejos de ego ideal, e o "amigo" que levou o bêbado pra fora da festa, pode desejar ser igual ou tanto quanto bêbado, afinal provavelmente por algum tempo ele foi a atração da festa, dono da maioria dos olhares e risadas.


Mas o bêbado pode se levantar no dia seguinte após um bom banho e o amigo afundará a sua vida na sarjeta.


Os caminhos podem ser certos, não os destinos.

E a saga do espelho continua.

Anônimo disse...

E a menina Cintia Scoriza escreve novamente.Esta ficando boa nas tentativas.Nada pessoal,claro.Jê Theodoro, você é quem? o bêbado ou o amigo que o descarta por não conseguir ser tão interessante quanto?

Jé Theodoro disse...

Olha cara, a essa altura do campeonato, depois de tudo, eu não passo de um bebado desenteressante e desenteressado...

cintia scoriza disse...

Pois é..."anomino" ,estou sempre nas tentativas!
Já assumi o bêbado que passa mal, o amigo nas duas versões.Preferi para de beber de algumas fontes...liquidas ou não...no final sempre me davam muita dor de cabeça.

Londrina disse...

Caro Mestre
Ótimo artigo, poucos comentários. Será que não está na hora da valsa marselhesa?
Abraços

Anônimo disse...

Parabéns pelo ensaio. Greimas?
Seu livro está ótimo...

Anônimo disse...

“Se fulano faz o que faz e é o que é, bobo sou eu de fazer tudo certo!” Sua oração me fez lembrar Rui Barbosa em Oração aos Jovens..."um dia teremos vergonha de ser honestos"....parabéns... it is fine...very good (pronúncia de escola pública...rsrsrsrsrsrsrs)

bruno pinto soares disse...

Caro Mauro,

Descupe a omissão desses dias. Muita correria e uma gripe que me pegou de surpresa. Só agora pude ler com atenção suas palavras.

Como disse, anteriormente, suas idéias sempre estão envolvidas em brumas, que não são fáceis de dispersar. Esse texto vaticina sobre o futuro de alguns dos pares? De alguém em especial? Seria uma auto-análise?

Uma vez vc me disse que não achava interessante escrever algo direcionado, pois os demais não são obrigados a entender um texto unilateral.

Absorverei suas palavras como um conselho. A reflexão, nesse momento, é o melhor que devemos fazer.

abraço

Mauro disse...

Bruno, o 1º comentário, do Jé, tira sua dúvida. Fui bancário 25 anos, o que vi nessa atividade e ao longo da vida de pessoas plantando a própria danação é absurdo. Todos os meus textos feitos para publicação são universalistas e utilitários, pelos menos essa é a minha meta. Como lhe disse certa vez, jamais escrevo para alfinetar alguém ou para um, inclusive porque acho isso um desrespeito aos leitores.
Amigo Londrina, o maestro da valsa do adeus está sempre a postos para quem escolheu a liberdade.
Bom Anônimo que citou Greimas: não, não é Greimas. É mesmo o método indutivo: uma teorização a partir de observações, no caso, ao longo de décadas.
Grato a todos pelos comentários. abraços.

Mauro disse...

Bruno. Agora, se vc me perguntar se eu acho que há pessoas na vida pública da cidade plantando a própria danação, eu digo que há. Mas meu pobre texto não tem nada com isso. Abração.

filósofo alemão disse...

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue.Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.É difícel compreender sangue alheio:eu detesto todos os ociosos que lêem.O que conhece o leitor já nada faz pelo leitor.Um século de leitores,e o próprio espírito terá mau cheiro.Ter toda a gente o direito de aprender a ler é coisa que estropia,não só a letra mas o pensamento.Noutro tempo o espírito era Deus;depois fez-se homem,agora fez-se populaça.O que escreve em máximas e com sangue não quer ser lido,mas decorado". Observe um pouco mais os textos que seu aluno preferido escreve.Acho que a criatura (Londrina) está escrevendo melhor que o criador.

Ensaio Sobre A Segueira disse...

Diante de uma borboleta, o leitor exclama: ‘olha uma borboleta!’
O crítico revida, entediado: - Ah! Sim, um lepidóptero...
Sua obra é sedutoramente estranha, uma ponte de conversa, não é feita para filósofos, mas para iniciantes. Vou tomar uma postura socrática, sobre seu ensaio.
Os novos devem nutrir o desejo de profanar, os contemporâneos como nós, devemos discutir as vozes múltiplas, em vez de ficarmos presos nessa imobilidade trágica.

Fábio disse...

“Dostoievski escreveu: os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros” Mauro os homens são pássaros que tem medo do abismo. Por isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.
Os irmãos Karamazov, lindo livro, um abraço

Mauro disse...

Você anda sumido. Será que o grande Fábio inventou uma versão mais light do escurão (o gaiolão)?

Fábio disse...

Rsrs. Eu seria um corsário então, roubando do Londrina idéias geniais,rsrsr
É apenas a citação de um belo livro, abraços

Anônimo disse...

Briga de egos, será que foi isso que levou Ao final deste espaço?

Jé Theodoro disse...

Estou trabalhando num artigo sobre potêncial bioenergetico da nova alta paulista, para isso são necessárias certas leituras e pesquisas, oq leva algum tempo, peço paciência cara anônimo...a briga de egos com certeza prejudicou muito o blog, mas não creio q ele tenha chegado ao fim, pelo contrario, acredito q esta evoluindo...abraços!

Anônimo disse...

Muito bom esse moderador, mas cheira a ditadura ficar na Mao de uma pessoa sensor, corrija-me se estiver errado.

Anônimo disse...

Não teremos outro artigo no blog?
Desse jeito não sei não...

Bruno Pinto Soares disse...

Também sinto falta de bons artigos no Blog. Sorte que tivemos um bom texto do Mauro Cardim para reflexão nesses dias.

Faço mea culpa nessa questão, pois questões profissionais me afastaram por um tempo.

Depois das eleições, provavelmente, tudo voltará a normalidade!

abraço

Ps: O Moderador não censurará nenhum tipo de crítica ao texto. Há apenas três regras a serem seguidas. Algo simples e que ajudará a democratizar o espaço.

Apenas mandamos para o ostracismo aqueles que tentaram destruir a Ágora! rs

Fábio disse...

Tudo bom Mauro.
Sua analise sobre o texto do bruno foi um pouco grotesca não acha?Eu trabalho do pressuposto de que se deve concertar o telhado com o tempo bom, mesmo apoiando a administração que sempre foi pautada pela honestidade, deve haver mudanças técnicas para agilizar as demandas da população, o bruno como eleitor e cidadão tem todo direito de expor suas reivindicações, no caso como com um bom artigo. Sei que faz parte da tropa de choque do executivo, mas toda demanda de um adamantinense deve ser analisada com carinho independente de sua ideologia ou classe social, não estamos em uma ditadura, vivemos num estado democrático de direito.