segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A religião e o espaço público

Certos temas são classificados pela sociedade brasileira como não passíveis de discussão e posicionar-se em alguns desses casos denota liberdade intelectual, abertura ao diálogo e respeito às diferenças. Partindo desse pressuposto, dois fatos ocorridos recentemente colocam no cerne do debate a influência e a participação religiosa em políticas públicas e no direcionamento de verbas a favor dessa ou daquela crença, o que não pode passar despercebido e sem uma mínima reflexão por parte da sociedade. Refiro-me aos casos da polêmica imagem de Nossa Senhora Aparecida em Adamantina e da discussão sobre a entrega da pílula anticonceptiva, conhecida como ‘pílula do dia seguinte’, no carnaval pernambucano, o que causou a ira da Igreja Católica daquele estado. Antes de qualquer coisa devemos salientar que o Estado brasileiro é laico, significando assim que não há religião oficial e que todas as crenças têm direitos iguais perante a legislação do país. Analisando por essa ótica me posiciono a favor da retirada da imagem da santa da entrada da cidade, pois esta se caracteriza como uma arbitrariedade de seus idealizadores em relação às outras religiões que não compartilham da mitologia religiosa defendida pelo catolicismo. O culto em ambiente privado não representaria nenhuma agressão, afinal é de extrema importância a livre expressão religiosa de cada cidadão, o que no caso de Adamantina não se enquadra, pois dinheiro público foi usado na confecção e instalação da imagem. O contribuinte adamantinense pode sim sentir-se lesado contra tal ato, pois ele participa indiretamente da promoção de um ícone religioso de qual a fé ele não professa e por isso não precisa estar disposto a pagar por ele. Essa discussão poderia abranger também o caso do crucifixo que se encontra na câmara de vereadores da cidade, a réplica do Cristo Redentor e de outras imagens em prédios públicos, pois ferem a constituição e se tornam uma imposição ao culto católico, algo abolido no Brasil desde a primeira constituição republicana de 1891. Certamente, a esmagadora maioria dos adamantinenses está na religião católica e há ainda outros que, mesmo em outra crença, simpatizam com a imagem e seu simbolismo, todavia, devemos lembrar que uma verdadeira democracia não é a ditadura da maioria e sim o respeito pela multiplicidade e a defesa dos menos representados. Essa visão enquadra-se também no caso da distribuição gratuita da pílula no carnaval de Recife, alvo de duras críticas da Igreja daquele estado que, por incrível que pareça, tenta mudar a decisão da secretaria e proibir essa medida pública de saúde. Católicos, evangélicos, espíritas e outros, devem sim entrar no debate sobre as questões político-sociais do país e devem também defender suas bandeiras morais e éticas, isso é incontestável. Contudo, é inadmissível que a Igreja, usando de seu alto poder representativo na política, queira interferir e modificar, a seu bel prazer, as medidas de prevenção adotadas por esta ou aquela cidade. Os cidadãos e turistas de Recife, assim como os adamantinenses, não são obrigados a conviver e aceitar qualquer tipo de ingerência religiosa em suas vidas, tanto em medidas de saúde pública quanto em ícones em locais também públicos. O ato de usar ou não a camisinha, defender ou não o aborto, usar ou não a pílula, ostentar ou não um símbolo religioso, deve se manter em caráter privado ou ser colocado em debate no momento adequado, sempre atento a todas as vozes discordantes e mediados por um órgão competente para isto, e não ser imposto, com o pretexto de ser a voz e a vontade de uma pretensa ‘maioria’. Espero que políticos, religiosos, pessoas públicas e os cidadãos comuns estejam abertos e cientes disso, e percebam que antes de sua opção particular de fé há o respeito às leis, o direito do indivíduo, o poder do Estado e o respeito às minorias, casos não levados em conta nas cidades de Adamantina e Recife. Após a correção dos desvios a religião deve manter-se estrita a seus séquitos e não imposta, por vias tortuosas, a todos os cidadãos. Dessa forma, aplaudo a decisão da justiça sobre a retirada da imagem da santa na entrada da cidade e defendo a total separação da religião em relação ao Estado, tanto das decisões políticas como dos cofres públicos.
Obs: Texto publicado no dia 8 de fevereiro - Diário do Oeste.
Levantei, novamente, a questão, pois pouco sei sobre a opinião dos adamantinenses sobre o assunto.

12 comentários:

Mauro Cardin disse...

Argumentação muito bem feita!
De novo o caso da Santa, Bruno!... Vamos lá, prepare-se! Abraços, e boa sorte!(não seria "mas", e não "e" antes de "posicionar-se", na segunda linha; é logo no início; e não é o início de qualquer texto, mas de um artigo antológico; quem quiser contar a história de Adamantina no futuro vai ter de falar dele). Rs

Fabio Ortega disse...

Meu caro Bruno
A religião esta na alma do povo brasileiro, Bruno política e religião entrelaçam em vários contes tos. . Arrancar a imagem geraria um conflito sem precedentes na cidade. Muitos espaços públicos são usados para celebrações religiosas de varias crenças, O que ocorreu foi uma improbidade administrativa e isso cabe ao judiciário condenar ou não o agente publico. O agente publico Bruno não o catolicismo. A imagem não esta indo contra uma minoria como você pensa, ela esta lá demonstrando a fé católica.

Quanto ao caso do recife sou a favor da camisinha e totalmente contra o aborto.
Buscando a polemica, como você se posiciona na aliança do PT com o braço político da igreja universal do reino de deus?

Anônimo disse...

E o que vamos fazer com a estátua do Cristo Redentor do Rio de Janeiro,Bruno?

Londrina disse...

Caro Bruno.
Esse assunto está mexendo com os brios dos carcamanos tupiniquins. Como existe alguns da espécie carcaceiro na cidade, todo cuidado é pouco. Falando nisso, nossos líderes religiosos deveriam colocar mais duas imagens no município: Padim Ciço no trevo da FAI e Buda no Parque dos Pioneiros. Acho que se isso acontecesse, Adamantina poderia reinvindicar junto ao Vaticano, ou a quem quer que seja, o título de Cidade Santuário.
Abraços.

Anônimo disse...

Meu Deus do seu não tem outro assunto não, querem transformar Adamantina na Irlanda do Norte.

Bruno Pinto Soares disse...

Caro Mauro, agradeço o auxílio gramatical. Esse foi um dos primeiros textos que escrevi e há alguns problemas em sua construção. Contudo, penso que a idéia ficou clara e fico feliz de fazer parte de uma discussão que, acredito eu, renderá muitos frutos em nossa cidade. Torço para que sejam benéficos!

Fabio, na minha opinião, vc confunde religiosidade privada com espaço público. Mesmo que, historicamente, o Brasil seja um país, predominantemente, católico, não dá o direito de estar acima da lei e impor sua visão de mundo a outros cidadãos, pagadores de impostos e com os mesmos direitos. O erro foi do administrador público, mas também condeno a hipocrisia da maioria que não levantou essa questão, pois atendia seus interesses religiosos. Nos resta aguardar a decisão judicial.

Para aqueles que acreditam que quero criar um sentimento desconfortável entre as religiões da cidade, estão enganados. Quero apenas que todos possam gozar da liberdade religiosa, mas que isso não fira os direitos individuais. Há espaços determinados para cada religião, assim como a propriedade privada de cada pessoa. Não se deve utilizar dinheiro e espaço público nessas questões, defendo essa idéia veementemente.

Caro Londrina,para não precisarmos colocar estátuas, crucifixos, e outras tantas divindades religiosas por toda Adamantina seria interessante não ter nenhuma. Acredito que isso não interferirá na liberdade religiosa de nossos cidadãos.

A laicidade do Estado acima de tudo. Isso é o que defendo. Todavia, não quer dizer que não estou passível de críticas.

abraço

Lais Gasparini disse...

Oi Bruno!!
Muito bom texto, como ja disse em sua primeira publicação.É muito importante frizar que o Estado é laico, porém não é ateu como diz o grande e renomeado jurista Alexandre de Moraes e também em nossa Constituição em seu preâmbulo, mas me abista, de certo modo,que ainda há pessoas que confundem o espaço público com o privado..usar dinheiro público para beneficiar somente um pequeno grupo além de ser errôneo é crime e portanto está ferindo a nossa Constituição, espero que todos comecem a ter esta visão de público e não fechar os olhos para certos fatos que acontecem em nossa cidade.

bruno pinto soares disse...

Olá Lais,

Obrigado pelo comentário. Muito sensato, algo que muitas vezes falta por aqui.

Concordo plenamente com sua visão e com a LEI.

Espero vê-la, novamente, por aqui.

Fabio Ortega disse...

Não confundo Bruno. O espaço publico que disse se refere a estádios, praças o nome até diz espaço publico onde pode haver manifestações e entre elas as religiosas,e intero o culpado é o agente publico.quanto ao estado laico concordo,temos que tratar igualmente todas as manifestações religiosas,seja qual for. Agora aos anônimos concordo com você. Religiosidade Bruno gera polemica e poucos têm coragem de debater. Um abraço

Sebar disse...

neste debate secular para a maioria, porém, sagrado para a minoria ou vice-versa, deve-se repensar por meio da reflexão histórica as invasões portuguesas e espanhoas no denominado NOVO MUNDO NOVO por meio da opressão e repressão da CRUZ com a ESPADA ou da ESPADA COM A CRUZ...

Guilherme Cavassini disse...

Grande Bruno,

Concordo plenamente contigo, cadê o Estado Laico que tanto se diz na Constituição, transformando trevos de cidades em santuários católicos, ignorando assim uma grande parcela que não congrega da mesma fé.

Vou frequentar mais por aqui,

Um abraço!

Bruno Pinto Soares disse...

Grande Cavassini!!!

Obrigado pelo comentário. Fico feliz com sua visita, não apenas por ser elogiosa, fato raro nesse espaço, mas por ser um cara jovem e que tem interesse em debater outros assuntos.

Você, morador de Lucélia, passa pelo mesmo problema de Adamantina. Se precisar de um companheiro nessa 'Cruzada Laica' (o trocadilho foi proposital), estou à sua disposição.

Grande abraço