quinta-feira, 10 de julho de 2008

Imprensa e Cidadania

A América (EUA), hoje invejada pelo grau de cidadania, certamente não existiria como tal se não fosse a sua imprensa. Modelo de democracia e de respeito aos direitos civis, faz da liberdade de imprensa o escudo contra as investidas totalitárias e arbitrárias do poder público. Certamente eles aprenderam ao longo de sua história que as pessoas que ocupam cargo público não gostam de se ver servos daqueles que as pagam com tributos pesados. Preferem ser tratados como senhores insubmissos às necessidades da comunidade, acima do bem e do mal. Como humanos, preferem a badalação e a bajulação à incômoda cobrança dos cidadãos. Aliás, ao invés do cidadão, preferem-se os súditos, submissos, calados, feito cordeirinhos adestrados para a morte.
Infelizmente, no Brasil, a imprensa não teve a mesma sina da América. Aqueles, que colonizaram estas terras, simplesmente a expurgou. Com a vinda da família real, há 200 anos, permitiu-se que a imprensa fosse possível na Terra de Santa Cruz. Contudo, claro, ela devia cumprir o sagrado papel de contar as anedotas da corte e de seus asseclas. Com o advento da República, a imprensa começou a dar pequenos avanços. Mas, a cada avanço, não faltaram os golpes de foice bem retratados no período do Estado Novo e da Ditadura Militar.
Felizmente a Constituição de 88 colocou-a no devido lugar ao reconhecer o seu papel na construção da democracia e da cidadania. Vinte anos já se passaram, mas o fantasma da censura ainda ronda e tenta torturá-la como forma de se livrar dos incômodos. Não é à toa que a Justiça brasileira ainda está entre as que mais punem a imprensa no mundo, como indicam dados da ONU.
Felizmente, também, aos poucos as garantias constitucionais do exercício da imprensa vêm sendo reconhecidos pela suprema corte. Como já observou Gilmar Mendes, atual presidente do STF, “a tendência desta Corte é não restringir a liberdade da imprensa”, referindo-se a centenas de ações que tramitam na Justiça contra os meios de comunicação.
Enfim, aos poucos estamos aprendendo que não se pode querer um povo livre e soberano sem que haja imprensa livre e independente. Em suma, não pode haver cidadania sem liberdade de imprensa. Restringi-la é dar comida à voracidade do Estado.

7 comentários:

Mauro Cardin disse...

É bom vê-lo por aqui, professor. Bem-vindo!

Fabio Ortega disse...

Professor, depois do onze de setembro e a doutrina do choque e pavor adotado pelo governo George Bush Jr isso não mudou?Aqui na minha visão a imprensa esta ligada a interesse, o interesse público e interesse do público.

Bruno Pinto Soares disse...

Professor,

Temos que salientar os bons momentos de nossa imprensa, como na Campanha Republicana, nas questões Abolicionistas, no Movimento Operário e também durante a Ditadura Militar.

Percebemos que foram momentos pontuais, alguns sem grande continuidade, outros de suma importância. Mas 'pedras' fundamentais foram lançadas.

Quem sabe não começamos um movimento em nossa cidade!?

Qual a sua impressão em relação a um blog nesse contexto?
Ele tem o poder de criar discussões? De ser uma Ágora virtual? Um local de reflexão independente?

abraço

Sebar disse...

A discussão, ou melhor, o debate sobre LIBERDADE DE IMPRENSA é mais do que necessária neste contexto denominado DANOS MORAIS no PAÍS DO FAZ DE CONTA, tendo em vista os desencontros da justiça neste cenário mediado pelas forças ocultas de um passado recente...

Chiquinho Toffoli disse...

Concordo com o último parágrafo do artigo do Prof. Rubens.Talvez um dia possamos chegar neste patamar. Por enquanto eu acho que não existe liberdade de imprensa nem aqui nem na China.

Rubens Galdino da Silva disse...

Ao Mauro Cardin, agradecimentos à recepção. Ao Ortega, respondo: o fenômeno 11 de setembro é tópico. Em nada anula a rica história da tradição americana. A reação à tentativa de retrocesso é a ascensão de Obama, na minha avaliação. Ao Bruno, concordo que há momentos signficativos. Mas também são tópicos e restrito à grande imprensa. Quanto aos bloggers, essa é uma experiência nova e há grande chance de ser um espaço catalisador de mudanças. Ainda é muito cedo para avaliar a sua impactação. Ao Toffoli, acredito que a liberdade plena é algo quimérico, mas não temos como negar avanços de independência entre a esfera da mídia e o setor público. Há fartos exmplos disso no Brasil e em países do 1º mundo.
A todos, grato pela participação.

bruno pinto soares disse...

Professor,

A discussão em ambiente virtual é algo novo em nosso país e cria uma certa desconfiança em muita gente. Percebo que há mais críticas do que apoio em relação a nossa proposta.

Devemos trabalhar para que esse espaço contribua, de alguma maneira, para a discussão de idéias em nossa cidade.

Abraço